trecho do livro "Graça e Coragem"
Ken Wilber
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“Fui andando até o Reno e tomei a balsa para Königswinter. Lá, um bonde nos leva ao topo da fabulosa Drachenfels, a montanha mais visitada da Europa, local de uma majestosa fortaleza que, no passado, protegeu o Reno por duzentas milhas. Como qualquer maravilha cênica, Drachenfels é uma mistura de monumento empolgante e atrações turísticas bastante cafonas. Existe uma torre na fortaleza que a maioria dos turistas não sobe. Leva-se talvez uns vinte minutos de cuidadosa escalada para subir degraus íngremes, pequenos, claustrofóbicos.
Do topo dessa torre, conseguia vislumbrar talvez 260 quilômetros em todas as direções. Olhei para a direita: a torre de Bad Godesberg, a catedral de Bonn, o grande Domo de Colônia, setenta quilômetros ao norte. Olhei para cima: Céu; olhei para baixo: Terra. Céu, Terra; Céu, Terra. E isso me fez pensar em Treya. Nos últimos anos, ela retornara às suas raízes na Terra, ao seu amor pela natureza, ao corpo, ao fazer, à sua feminilidade, à sua abertura, confiança e atenção essenciais. Enquanto eu permaneci aonde queria, onde me sinto em casa – no Céu, que, na mitologia, não significa o Mundo do Espírito mas o mundo apolíneo das idéias, da lógica, dos conceitos e símbolos. O Céu é da mente; a Terra é do corpo. Eu considerava os sentimentos e os relacionava a idéias; Treya considerava as idéias e as relacionava a sentimentos. Eu me movia do particular para o universal, constantemente; Treya movia-se do universal para o concreto, sempre. Eu amava pensar, ela amava fazer. Eu amava a cultura, ela amava a natureza. Eu fechava a janela para ouvir Bach; ela desligava Bach para ouvir os pássaros.
Nas tradições, o Espírito não é encontrado nem no Céu nem na Terra, mas no Coração. O Coração sempre foi visto como a integração ou o ponto de união do Céu e da Terra,o ponto em que a Terra sustenta o Céu e o Céu exalta a Terra. Nem a Terra, nem o Céu, sozinhos, podem capturar o Espírito; só o equilíbrio dos dois, encontrado no Coração, pode levar à porta secreta além da morte, da mortalidade e da dor.
E foi isso que Treya fez por mim; foi isso que fizemos um pelo outro; apontar o caminho para o Coração. Quando nos abraçávamos, Céu e Terra unidos, Bach e os pássaros cantando, a felicidade se abria diante de nós até onde nossos olhos podiam ver. No início do nosso relacionamento, às vezes essas diferenças nos irritavam, eu, o professor distraído, sempre voando pelas idéias, tecendo teorias complexas em torno dos mais simples eventos; Treya sempre abraçando a Terra, recusando-se a voar sem primeiro programar-se.
Mas, logo percebemos que esse era o ponto essencial, nós éramos diferentes; talvez ele se aplicasse a muitos homens e mulheres (à Carol Gilligan), isto é, longe de sermos pessoas inteiras e auto-suficientes, éramos meias-pessoas, uma do Céu, outra da Terra, e era exatamente assim que deveríamos ser. Estamos aqui para apreciar essas diferenças – não apenas glorificá-las, mas sermos gratos a elas. Eu sempre me sentiria à vontade no mundo das idéias, Treya sempre se sentiria em casa no mundo da natureza, mas juntos, unidos pelo Coração, formávamos um Todo; podíamos descobrir aquela unidade primitiva que nenhum de nós, sozinho, conseguia administrar. Nossa citação favorita de Platão passou a ser: “Os homens e as mulheres, uma vez, já formaram um Todo, mas foram rasgados em dois, e a busca e o desejo daquela totalidade chama-se amor”.
A união do Céu e da Terra, continuei divagando, enquanto olhava para cima e para baixo. Com Treya, eu pensei, estou começando, só começando a descobrir meu Coração.
E ela vai morrer. Esse pensamento me fez chorar, na verdade, soluçar, incontrolável e ruidosamente. Algumas pessoas, falando alemão, me perguntaram, eu presumi, se estava me sentindo mal; gostaria de estar com o meu cartão em alemão que dizia: “o Dr. Scheef me deu permissão especial para fazer isso”.
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