Da Matrix ao Self

O desafio evolucionário da mídia e das organizaçõespor Rosa Alegria*


“Queremos ver exclusivamente o mundo que está desmoronando ou colocar nossas luzes no novo mundo que está nascendo? Este é o poder da mídia, que pode colocar os refletores no que lhe interessa”

Judy Rodgers, fundadora do movimento Imagens e Vozes de Esperança


Submersos pelos naufrágios noticiados da crise, estamos vivendo a dialética de uma era extraordinária, com potencial para a evolução da consciência e abrir as portas para novos estilos de vida. Mas ao mesmo tempo, a nossa capacidade de imaginar um futuro desejado tem sido cada vez mais precária. Nesse momento de incertezas e descrença, é fundamental que a mídia mude os filtros com que normalmente se propõe a traduzir a realidade, dramaticamente revelada de forma distorcida e negativa. Esse artigo se propõe, através de uma pequena coleção de pensamentos, a despertar as organizações em seu potencial criativo para o seu papel transformador como pólos de uma nova consciência que conduza a coletividade ao desenvolvimento sustentável. Do universo das realidades distorcidas e do faz-de-conta que aqui denomino de Matrix a convocação é ingressar na travessia transformadora que leve ao paraíso reunificador do Self, a referência original da nossa essência criativa e regeneradora.

Introdução

Chegamos a um novo estágio da evolução social, espiritual e cultural. Diferente dos estágios anteriores, porque as mudanças vinham de vilarejos, de tribos nômades, de cavernas. Estamos saindo de sociedades industriais indo para um processo de interconexão, com base em sistemas de informação sociais, econômicos e culturais que permeiam o planeta.

O caminho dessa evolução não é suave: dói como um parto. [1] Como diz Barbara Max Hubbard, estamos parindo um novo mundo ou até podemos nos sentir vivendo num mundo novo em gestação, referindo-se à visão de Rose Marie Muraro[2]. A era da globalização está trazendo grandes transformações, como a que Ervin Laszlo chama de macro transição [3], resultado de uma nova consciência dos membros do sistema. A era contemporânea está chegando ao fim, olhando pelos injustos arredores, respirando o impoluto ar carbônico, tentando sobreviver ao caos e às vias transitadas das grandes metrópoles, assistindo ao frenesi fabricado para aliciar consumidores vorazes, podemos evidenciar que essa era não é mais sustentável.

A ética e a era da mídia

Para concretizarmos a possibilidade de um mundo mais sustentável e humano, temos que rever os valores éticos que a mídia, em seu reinado absoluto na era da informação, tem propagado, e repensar sobre as escolhas dos meios de comunicação, na difusão de hábitos, pensamentos e culturas. Para curar essa cultura repleta de doenças que transcendem a esfera social e afetam o estado físico, como a anorexia nervosa e a bulimia (provocadas pela ditadura da magreza estampada nas capas de revista), a neofilia ( manifestação compulsiva e patológica pelos novos produtos lançados pelo marketing) pelos índices crescentes de obesidade infantil, que só nos últimos 20 anos aumentou 240%, e sem falar do déficit da atenção e infostress provocados pelo excesso de carga informativa.

O momento é de grande potencial e infinitos recursos. O acesso à mídia de massa tem aumentado mais do que nunca na história. Essa expansão envolve rádios, TVs, computadores e telefones móveis, todos cada vez mais baratos, e a nova mídia broadcast, como satélites e Internet, que aumentam o acesso e a possibilidade de escolha.

Mais e mais pessoas participam ativamente daquilo que a futurista Hazel Henderson chama de ” midiocracia”[4], um poder fortalecido pelo acesso aos meios de informação e ao mesmo tempo ameaçado pelo excesso de poder concentrado pelos grandes grupos. A nova ordem é abrir espaço para múltiplas vozes, promover participação em conversas públicas e desenvolver uma cidadania informada. A conversação passa a imperar nas relações comerciais. A Internet, até então voltada para resultados financeiros, passa a estar mais focada na qualidade das conversações com os mercados na micromídia. Alguns sinais dessas mudanças são a crise da mídia impressa, o advento da Web 2.0, a expansão da propaganda on-line, a revolução do You Tube, 27 milhões de blogs, os podcasts e videocasts, os wikis e o poder do boca-a-boca pela busca da transparência e da confiança.

Manifestações da sociedade já podem ser observadas como resistência a essa concentração de poder sobre a informação. Numa pesquisa realizada em 2006 com jovens pela Bloomberg em parceria com o jornal norte-americano Los Angeles Times, 28% dos adolescentes e 38% dos jovens adultos ouvidos disseram preferir se informar a partir dos canais de TV locais, que foram a fonte de notícias mais procurada por eles depois das conversas com amigos e família.

A crise da confiança

A economia atual está na berlinda, e em seu colo, estão as organizações. Depois dos grandes escândalos corporativos como os da Enron, WorldCom e Parmalat, as empresas têm se esforçado para incorporar a ética e a transparência em seu dia-a-dia. No entanto existe uma grande crise de confiança. O público confia cada vez menos nas organizações. Os clientes têm menos confiança e até mesmo os funcionários não confiam na empresa em que trabalham. Recente pesquisa realizada pela consultoria inglesa Edelmann (Barômetro da Confiança) em 2006, em 11 países, indica que a comunicação de igual para igual - com alguém no mesmo nível hierarquico ou companheiro de trabalho tem muito mais credibilidade do que a que vem oficialmente da empresa. De 22% em 2003 a 68% em 2006 a proporção daqueles que dizem que acreditam muito mais no seu colega do que na comunicação que vem da empresa. Será o mundo real aquele que os murais de avisos e publicações institucionais estão querendo mostrar? Sair da Matrix dos números manipulados, das notícias maquiadas, das pílulas douradas pode representar uma ação corretiva imediata para o resgate da reputação institucional. Entrar no Self da consciência ambiental, da responsabilidade social, da valorização da vida, é o chamado para as organizações que se propõem a ser sustentáveis e a trabalhar para a sustentabilidade do Planeta.

O espelho embaçado

Um dos mais importantes físicos modernos, Oppenheimer, já revelou que não vivemos num mundo real; vivemos num mundo que nós criamos. A mídia cria realidades que nos afetam o tempo todo e até confina a realidade em si mesma.

Nessa macro transição planetária, há uma pergunta que habita no inconsciente coletivo que não quer se calar: estamos vivendo num mundo virtual ou num mundo real? Entrando no roteiro futurista da trilogia do cinema, mergulhamos na Matrix midiática da qual não conseguimos sair. É como se estivéssemos nos olhando num espelho embaçado, nos alimentando pelo reverso de uma cultura destrutiva, através de imagens distorcidas.

A cobertura das notícias é também distorcida. Uma pesquisa realizada em 1998 pelo ILANUD, órgão da ONU que estuda a prevenção dos delitos e o tratamento da delinquência, intitulada “Crime e TV”, acompanhou durante uma semana a programação de 27 telejornais exibidos pelas emissoras de canal aberto existentes no país. “Percebeu-se uma distorção gritante entre a ocorrência na realidade e a freqüência na divulgação pela mídia”, afirmou Karyna Sposato, responsável na época, pela organização no Brasil. Por exemplo, enquanto os crimes de homicídio ocuparam 59% das notícias veiculadas, sua real incidência no mesmo período foi de 1,7%. Podemos constatar que esta distorção tem sido o padrão da mídia brasileira.

O filme Matrix em sua trilogia premiada, propõe que o mundo em que vivemos e que chamamos de realidade é na verdade um pesadelo coletivo, um mundo ilusório criado e mantido por computadores. E assim estamos: sendo tragados pela Matrix da mídia e vivendo um pesadelo coletivo, desprovidos de sonhos, utopias, sem a imaginação, essa que se perdeu. Para reencantar nossas realidades e restaurar o mundo em que vivemos, é urgente que enriqueçamos nossa linguagem deficitária[5], que se produzam conteúdos construtivos e que se oxigenem o imaginário coletivo para que a sociedade desembace o seu espelho, caminhe na direção da luz e floresça.[6]

A escolha de optar pelas luzes, pelas soluções e pelas possibilidades futuras poderá transformar a mídia em seu propósito de criar uma nova civilização e despertar cada ser humano para o sentido maior de sua existência: entrar em contato com a própria vida.

O que se vê e se lê na mídia não é o que dá vida. Uma vez que a vida se reinstale nos meios de comunicação em seu poder de criar e regenerar nossa fé e capacidade de sonhar, as sociedades passarão a idealizar um futuro melhor e serão capazes de projetar o amanhã para superar crises (que são muitas e sempre existirão), guerras, epidemias e revoluções. A mídia poderá adotar um olhar prospectivo em vez de retrospectivo. Poderá acender o farol de milha, com cenários alternativos, caminhos múltiplos, tendências e projeções que alertam e mobilizam, em vez de só olhar pelo retrovisor, com perspectivas informativas que se restringem ao cristalizado fato, a tudo o que já foi e não pode mais mudar o rumo da história.

Podemos aprender com a biologia, que revela pela ciência o comportamento das culturas. Diz o princípio heliotrópico que as plantas crescem em direção da luz do sol. Assim como as culturas florescem na direção da esperança. É urgente que a sociedade entre em contato com as possibilidades e veja refletidas no espelho imagens vívidas de seu próprio potencial criativo.


Fonte: Portal IVE

*Rosa Alegria é futurista, pesquisadora de tendências, comunicóloga e ativista de mídia. É diretora de Conteúdo do Mercado Ético.


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