Estamos indo em direção a uma qualidade superior de humanidade

IHU On-line

No último dia 26 de janeiro, esteve em São Leopoldo o renomado filósofo francês Patrick Viveret. Ele participou do Fórum Mundial de Teologia e Libertação, realizado na Escola Superior de Teologia - EST. Na ocasião, recebeu gentilmente a IHU On-Line para um conversa exclusiva, da qual resultou a entrevista que segue. Em suas respostas, Viveret declara que não acredita que estejamos em uma situação de pós-humanismo, pois tudo ainda se reflete no plano da humanidade. E ao descrever as características desta humanidade, Viveret considera que “não somos somente prematuros físicos, mas também, prematuros psíquicos. Somos mendicantes de amor. Nós temos sede de reconhecimento”.

Para ele, “a espécie humana ameaçada não está ameaçada pelo exterior, por bárbaros exteriores, mas é ameaçada internamente, por sua própria barbárie, sua própria parte de desumanidade”. E ele tem uma proposta: “que não sejamos ‘sabedores’ somente, mas ‘sábios’. Que a humanidade, que é uma rede pensante, graças, principalmente, às tecnologias da comunicação, em uma sociedade do conhecimento, possa ser, também, muito mais: possa ser uma rede de amor”. E conclui: “A humanidade tem dificuldades de se amar nas relações inter-humanas”.

Patrick Viveret é diretor de redação da revista Transversales Science/Culture. Ele participou também da mesa “Economia e Gratuidade”, debate integrante do seminário “FSM dez anos depois: desafios e propostas para um outro mundo possível”, realizado entre 25 e 29 de janeiro em Porto Alegre. É autor de Reconsiderar a Riqueza (Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - É hora de pensar em um novo humanismo? Quais seriam as características que deveria ter este novo humanismo?

Patrick Viveret - Penso efetivamente que é importante pensar em um novo humanismo que seja ao mesmo tempo mais profundo, mais radical, e também mais modesto que o precedente. Como foi construído nos séculos das luzes. Mais modesto, pois foi um humanismo que fazia do homem o mestre possuidor da natureza e ignorava a questão ecológica. Mais modesto também porque era um humanismo que acreditava nas virtudes da razão e que não analisava o conjunto do campo emocional e passional humano que Freud e a psicanálise salientaram. Ou, a importância dos fatos sociais que a sociologia e o marxismo salientaram. Deste ponto de vista, é um humanismo mais modesto, porém um humanismo mais radical e mais profundo, pois ele vai trabalhar sobre a dificuldade da questão humana. E o que faz a dificuldade de um ser humano é que somos seres também vulneráveis, pois o compromisso que encontrou a natureza para nos fazer nascer com um grande cérebro foi o de nos fazer nascer, de alguma forma, antes do tempo. Mesmo quando nascemos aos nove meses somos prematuros, no sentido físico do termo. Qualquer outro animal vai adquirir a sua autonomia em algumas horas, enquanto que para nós será preciso vários anos. Não somos somente prematuros físicos, mas também, prematuros psíquicos. Somos mendicantes de amor. Nós temos sede de reconhecimento. E, se este reconhecimento é mal orientado, pode em seguida ter efeitos muito contra produtivos. Então, um humanismo radical está na raiz da questão humana, na dificuldade do que se poderia chamar de ofício do ser humano, do ministério de humanidade. O que é, ao mesmo tempo, mais profundo e mais modesto do que o humanismo que vem dos séculos das luzes. E mais adaptado a um novo período histórico que é a questão do retorno da salvação para a humanidade. Como a humanidade é capaz de afrontar os desafios consideráveis que poderiam reconduzi-la a sua perda, como ela é capaz de fazer frente a estes desafios consideráveis ou, ao contrário, ir na direção de uma humanidade mais clara, uma humanidade capaz de metamorfoses, para usar o termo de Edgar Morin. E, este humanismo radical é um vetor necessário destas abordagens, sobre os quais, por exemplo, os movimentos dos Fóruns Sociais Mundiais procuram construir respostas ao mesmo tempo globais e positivas.


IHU On-Line - Quais são os principais limites e possibilidades da sociedade pós-humana que se delineia?

Patrick Viveret - Os limites e as possibilidades da sociedade pós-humana? Bom, isto é toda a corrente do pós-humanismo. Então atinge também os teóricos, autores como Fukuyama e Peter Sloterdijk. Não acredito que estejamos em uma situação de pós-humanismo. Ou seja, mesmo quando há, biologicamente, efeitos da revolução da vida e das novas tecnologias que permitem mutações biológicas da espécie humana, vem sempre a questão do futuro da humanidade. Então, deste ponto de vista, é sempre a questão do humanismo e não do pós-humanismo. E, não há, deste ponto de vista, nem fim da história, no sentido de Fukuyama e, além disso, a própria história se encarregou de trazer provas inversas à teoria do fim da história. A própria crise do modelo capitalista ocidental mostrou que havia uma história que se seguia e que podia ser uma história trágica. Mas, em todo caso, não estamos no fim da história e, da mesma forma, todas as mutações tecnológicas da ordem genética, na ordem mais ampla do que chamamos de revolução da vida, não anulam em nada a questão da humanidade em sua relação consigo mesma. Quer dizer que a grande questão do humanismo radical é como a humanidade é capaz de parar a sua parte de desumanidade. É a questão da barbárie interior e é uma mutação que chama a uma mudança, inclusive no plano político. Então, está ligado também às questões políticas e às questões éticas. Como em outros momentos, tradicionalmente o político, na história, se construiu sobre uma externalização da agressividade humana. Pacificava-se, civilizava-se um império, uma tribo, uma cidade, um Estado Nação, porque havia bárbaros no exterior. Bárbaros, infiéis, estrangeiros. E é este efeito de exterioridade que permitia pacificar ou civilizar uma coletividade humana. Na era da mundialidade, não temos a possibilidade de ter o mesmo processo, pois, para dizê-lo de um modo, mas que é puramente fantasioso, não são extra-terrestres que ameaçam a espécie humana. A espécie humana ameaçada não está ameaçada pelo exterior, por bárbaros exteriores, mas é ameaçada internamente, por sua própria barbárie, sua própria parte de desumanidade. E, ao mesmo tempo, o político não pode avançar na auto governancia da sociedade humana. A humanidade, que em seu conjunto está confrontada à uma questão de auto governancia, tem uma atualidade auto gestionária do problema da atualidade. E, nesta auto governancia, é possível que uma humanidade aprenda a trabalhar mais sobre a limitação do que sua própria barbárie interior de sua própria parte de desumanidade. Trata-se de toda uma questão da sabedoria. Além disso, além da sabedoria que antes era considerada como questões pessoais e provava que se colocava uma fração ínfima de cada geração de seres humanos, virou plenamente questões políticas. Pode-se dizer que, o grande negócio, o grande futuro da humanidade é o de saber se nos tornamos de fato Homo sapiens sapiens. Como diz Edgar Morin, somos mais Homo sapiens do que amantes, e, o grande negócio é de elevar nossa inteligência do coração ao mesmo nível que nossa inteligência mental. Que não sejamos “sabedores” somente, mas “sábios”. Que a humanidade, que é uma rede pensante, graças, principalmente, às tecnologias da comunicação, em uma sociedade do conhecimento, possa ser, também, muito mais: possa ser uma rede de amor.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o conceito da metamorfose, por Edgar Morin? O senhor concorda que vivemos em uma época de transição, de metamorfose, um impasse, onde o antigo acabou e o novo ainda não brotou? Que esperanças podem ainda haver?

Patrick Viveret - Para responder a esta questão da metamorfose para Edgar Morin, penso como ele que os três elementos do novo princípio de esperança são efetivamente o que ele chama: o improvável, as potencialidades criadoras e a metamorfose. O improvável é quando, retomando a frase de um personagem do filme de François Truffaut “A vida tem mais imaginação do que nós”. Quer dizer, ela tem também uma quantidade de possíveis que não vemos e, se a catástrofe é possível, é por que também há formas de esperança que não imaginamos, pois nosso imaginário é reduzido demais. Então, há o improvável, as potencialidades criadoras. Ou seja, não é simplesmente que um outro mundo seja possível, é que outras maneiras de se estar no mundo já estão aí. Nas formas de resistência criadora, nas novas formas da economia social e solidária, nas novas formas da ecologia, nas novas formas de solidariedade internacional. Há já outras relações no mundo que estão a caminho. Isso são as potencialidades criadoras e efetivamente tudo isso pode reunir as condições de uma metamorfose. Ou seja, as capacidades para a humanidade, continuando ao mesmo tempo humana, mas de alcançar o melhor. Esta é a potencialidade da humanidade. Da mesma forma como a borboleta já estava potencialmente presente no casulo. Mas, para que esta potencialidade se torne uma realidade, é preciso que a humanidade aceite fazer também um trabalho em si mesma. E aí, encontramos a questão da sabedoria, que não é mais uma questão simplesmente pessoal experimentada, mas igualmente uma questão plenamente política, uma vez que a humanidade só pode atingir uma qualidade superior de humanidade através de um processo que se poderia chamar de “grandes falas” em humanidade, como se diz nos encontros que se chamam de “diálogos em humanidade”. Ela só pode realizar isso se fizer um trabalho sobre si mesma. E isso encontra a questão política, pois a democracia é, por excelência, a etapa na qual a humanidade deve fazer a experiência da alteridade. Aceitar o encontro com a diferença. O encontro com a diferença do outro, o encontro com a difícil relação consigo mesmo. Isso é também uma alteridade em relação a si mesmo. E, também um encontro com o fato de que estamos situados em uma natureza, em um cosmos. Não estamos na natureza, somos da natureza. E, então, o trabalho de metamorfose é esta capacidade da humanidade de acessar ao que já está presente nela. Como no Homo Sapiens, mas através de todo um trabalho de humanidade que faz com que ela possa crescer. É a questão da emancipação que encontramos seguidamente nos Fóruns Sociais Mundiais. Mas, a emancipação não é simplesmente a luta para se emancipar dos fatores dominantes, a luta dos povos colonizados para se emanciparem das colonizações, a luta das mulheres para se emanciparem do patriarcado, a luta do povo operário para se emancipar das formas de exploração e de dominação. Evidentemente, todas estas dominações continuam atuais, mas emancipar-se é também crescer em humanidade. E isso não é simplesmente em relação a outros dos quais se libertam da dominação, mas também em relação à forma na qual crescemos em humanidade. Então, estamos indo em direção a uma qualidade superior de humanidade.

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Fonte: Mercado Ético